No princípio do mundo, nada nascia. Mas existiam pessoas, montanhas, árvores, animais, rios, mares, tudo. Frutos e sementes de todas as espécies. Nada nascia nem desaparecia. Não caía uma folha, não se abria um fruto, não nascia uma criança.
Nem as pessoas, vendo-se umas às outras, procuravam saber para o que existiam. Não pensavam, e se elas não pensavam também não falavam.
Diz-se que as terras de Lautém apareceram prontas com todas as coisas que o mundo ainda hoje tem. O princípio das pessoas, dos animais, das plantas e das coisas foi o aparecerem prontas. Lautém foi assim, apareceu cheiinho daquilo que precisa de existir: pessoas, animais, cavernas, plantas, montanhas e águas, e ar e luz. Lautém fica na ilha de Timor, na ponta voltada para onde o sol nasce.

Pois, no princípio de tudo, o que é que acontecia em Lautém? Nada, absolutamente nada. Tudo existia, mesmo as pessoas. As pessoas eram já crescidas e nunca tinham sido crianças. Nem iam envelhecer. Estavam vivas, mas não viviam. Então, Lautém era um sítio sem crianças, mas também é verdade que uma terra sem pessoas velhas. Não se sabia o que era nascer. Pessoas, animais, plantas, nada propriamente tinha nascido. Existiam.
As pessoas não sabiam que relação tinham umas com as outras nem que eram, nem para o que servia tudo o que as rodeava. Nem se era bom ou não o estar assim num tempo parado. Não estavam a dormir, mas também não estavam acordadas. Porque o não sabiam.
Mas a lua passava e continuava a passar lá longe, por cima de Lautém. Passou, até que as pessoas sentiram e perceberam que a lua dizia coisas e fazia sinais que nunca eram os mesmos.
- O que é aquilo?
- O que é aquilo?

Foi a primeira frase que disseram, a primeira pergunta que puderam fazer. Todas as pessoas a fizeram. Começaram, então, a ser capazes de perguntar e de responder. Perceberam que a lua, de cada vez que passava, era diferente. Umas vezes, mostrava caras; outras, lagos, montanhas, flores, mãos , frutos, gestos. E começaram a copiar e a imaginar e a aproveitar tudo o que as rodeava e comeram frutos e serviam-nos umas às outras. Com isso, nasceu o tempo e a vida e entenderam o movimento.
Saíam do paraíso.
As pessoas já envelheciam, e, por outro lado, nasciam crianças. As mulheres e os homens notaram as suas diferenças e souberam que isso era bom.
Nascia o amor. E riam.
Pelo, Fernando Sylvan